Magia do Caos

Texto cedido por BARATA
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por Peter J. Carroll
Na
Magia do Caos, crenças não são vistas como fins em si, mas como ferramentas para
criar os efeitos desejados. Entender isto completamente é encarar uma terrível
liberdade na qual nada é verdadeiro e tudo é permitido, que é o mesmo que dizer
que tudo é possível, que não há certezas, e que as conseqüências podem ser
desastrosas. A gargalhada parece ser a única defesa contra a compreensão de que
não se possui sequer um Eu real.
O
objetivo dos rituais do Caos é criar crenças agindo como se elas fossem
verdadeiras. Nos Rituais do Caos você finge até sentir, para obter o poder que
uma crença pode prover. Em seguida, se fores sensato, você rirá delas e buscará
as crenças necessárias para qualquer coisa que queira fazer depois, à medida em
que é movido pelo Caos.
Assim,
o Caoísmo proclama a morte e o renascimento dos deuses. Nossa criatividade
subconsciente e nossos poderes parapsicológicos são mais que adequados para
criar ou destruir qualquer deus ou Eu ou demônio ou qualquer outra entidade
espiritual na qual possamos acreditar ou desacreditar, pelo menos, para nós
mesmos e, às vezes, também para os outros. Os resultados freqüentemente
aterradores alcançados pela criação de deuses através do ato de comportar-se
ritualisticamente como se eles existissem não deverá conduzir o mago Caótico no
abismo de atribuir realidade definitiva a qualquer coisa. Este é o engano
transcendentalista, que leva a um estreitamento do espectro do Eu. O verdadeiro
terror reside no leque de coisas que podemos descobrir que somos capazes de
fazer, mesmo se tivermos que temporariamente acreditar que os efeitos se devem
a algo externo para que possamos criá-los. Os deuses estão mortos. Longa vida
aos deuses.
A
Magia apela aos que têm muito orgulho e uma imaginação fértil, somadas a uma
forte suspeita de que ambas, a realidade e a condição humana, possuem as
características de um tipo de jogo. O jogo possui final aberto, e joga a si
mesmo por diversão. Os jogadores podem criar suas próprias regras até certo
ponto, e, se desejado, trapacear usando parapsicologia. O tipo de magia
apresentado aqui, consiste em uma série de técnicas que atuam como extensões
extremas das estratégias normais que são possíveis dentro do jogo.
Um
mago é alguém que vendeu sua alma pela chance de participar mais inteiramente
da realidade. Apenas quando nada é verdadeiro e a idéia de um Eu verdadeiro é
abandonada, tudo se torna permitido. Existe alguma exatidão no mito de Fausto,
mas ele falhou ao levá-lo à sua conclusão lógica.
Precisa-se
apenas da aceitação de uma simples crença para que alguém se torne um mago.
Esta é a metacrença de que a crença é uma ferramenta para obter efeitos. Este
efeito é geralmente muito mais fácil de observar nos outros do que em nós
mesmos. É comumente muito fácil ver como outras pessoas e, até mesmo outras
culturas, são mais ou menos capazes, de acordo com as crenças que possuem.
Crenças tendem a levar a atividades que tendem a reconfirmá-las, num círculo
normalmente chamado de virtuoso, ao invés de vicioso, mesmo quando os
resultados não são agradáveis. O primeiro estágio de ver através do jogo pode
ser uma iluminação chocante, que leva a um cinismo tedioso, ou ao Budismo. O
segundo estágio de real aplicação do insight em si mesmo pode destruir a ilusão
da alma e criar um mago. A compreensão de que crença é uma ferramenta, ao invés
de um fim em si, tem imensas conseqüências se aceita por completo.
Dentro
dos limites impostos pela possibilidades físicas, e estes limites são muito
mais vastos e maleáveis do que a maioria das pessoas imagina, pode-se fazer
reais quaisquer crenças escolhidas, incluindo crenças contraditórias.
O mago não é aquele que busca por uma
identidade particular e limitada, mas aquele que deseja a meta-identidade que o
torna capaz de ser qualquer coisa.
Assim,
seja bem-vindo ao Kali Yuga do pandaemonaeon, onde nada é verdadeiro e tudo é
permissível. Nestes dias de pós-absolutismo, é melhor construir sobre areia
movediça que em pedra, que lhe confundirá no dia em que vier a rachar. Os
filósofos têm se tornado não mais do que proprietários de sarcasmos úteis, pois
foi revelado o segredo de que não há segredo no universo. Tudo é Caos, e a
evolução não está indo a nenhum lugar em particular. É o puro acaso que comanda
o universo, e assim, e apenas assim, a vida é boa. Nascemos acidentalmente em
um mundo aleatório, onde apenas causas aparentes levam a efeitos aparentes, e
muito pouco é pré-determinado, graças ao Caos. Como tudo é arbitrário e
acidental, talvez estas palavras sejam muito simplórias e pejorativas; ao invés
disso seria melhor dizer que a vida, o universo e todo o resto são espontaneamente
criativos e mágicos.
Deleitando-se com a realidade estocástica, podemos nos regalar exclusivamente
com as definições mágicas da existência. As estradas do excesso podem ainda
levar ao palácio de sabedoria e muitas coisas indeterminadas podem acontecer no
caminho do equilíbrio termodinâmico. É inútil buscar chão sólido onde pisar. A
solidez é uma ilusão, como o pé que a pisa, e o Eu que pensa possuí-los é a
mais transparente de todas as ilusões.
As pesadas embarcações da fé estão furadas e afundando juntamente com todos os
botes salva-vidas e suas jangadas engenhosas. Então você vai fazer compras no
supermercado de crenças ou no supermercado de sensações e permite que suas
preferências de consumo definam seu eu verdadeiro? Ou você, em um estilo corajoso
e alegre, roubaria ambos apenas por diversão? Pois a crença é uma ferramenta
para obter qualquer coisa que se considere importante ou prazerosa, e a
sensação não tem nenhum outro propósito além da sensação. Assim, ajude-se a
obtê-las sem pagar o preço. Sacrifique a verdade pela liberdade, em cada chance
que tiver. O maior divertimento, liberdade e realização estão em não ser você
mesmo. Há pouco mérito em simplesmente ser quem quer que você seja por um obra
congênita acidental e circunstancial. Inferno é a condição de não ter
alternativas.
Rejeite então as obscenidades da uniformidade planejada, da ordem e do
propósito. Vire-se e encare as ondas das marés do Caos, das quais os filósofos
têm fugido apavorados por milênios. Pule para dentro e saia surfando em sua
crista, exibindo-se em meio à estranheza sem limites e o mistério em todas as
coisas, rejeitando falsas certezas. Graças ao Caos isso nunca terminará.
Crie,
destrua, divirta-se, IO CAOS!