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Psiquê
era a mais belas das três filhas de um rei. Era tão encantadora
que a adoravam como se fôsse a própria Afrodite. Ciumenta
de ser igualada, a rainha dos Amores resolveu um dia vingar-se da rival.
Chamou seu filho e disse-lhe:Eros, meu filho, suplico-te com toda a minha ternura, é preciso que secundes os desejos de tua mãe. Alguns homens têm a insolente impiedade de comparar minha beleza à de uma mortal. Vai, meu filho, e faça que minha rival torne-se perdidamente amorosa do mais miserável e do mais feio dos. Homens Eros desceu, pois, do Olímpo à Terra. Mas quando viu a maravilha de graça e beleza que era Psiquê, apaixonou-se, ele próprio, e perdidamente, por essa outra Afrodite. Transportou-a para um palácio encantado e, nessa linda e solitária morada, escondida no coração de uma floresta adormecida, Eros, invisível mas solicito e encantador, ia visitá-la. Tudo que ela desejava era-lhe proporcionado. Jamais, entretanto, Psiquê viu na luz a suave fisionomia daquele a quem amava. Um dia, ela pediu a Eros para lhe revelar a beleza delicada que suas mãos adivinhavam, ao acariciar aquela face desconhecida, e o filho de Afrodite respondeu-lhe: - Serás feliz, ó Psiquê, enquanto guardares o segredo do nosso amor! Não procures ver-me, nem saber quem sou. Ama-me simplesmente e não rompas o encanto, buscando saber o que é preciso ignorar. "Porque queres me ver? Podes duvidar de meu amor? Tens algum desejo que não foi satisfeito? Se me visses, talves iria temer-me, talvez adorar-me, mas a única coisa que peço é que me ames. Prefiro que me ames como igual que me adores como deus." As duas irmãs de Psiquê, porém, invejosas da felicidade que lhe coubera, tramaram arruiná-la. Foram procurá-la e persuadiram-na de que o esposo, a quem pertenciam os tesouros que guarneciam o suntuoso palácio em que ela vivia como reclusa, era um monstro horroroso e repugnante. - Se desejares ter a certeza disso, - acrescentaram - esconde sob algum vaso um candeeiro. Depois, quando esse que acreditas ser teu esposo estiver mergulhado em profundo sono, levanta-te devagar, toma o candeeiro, aproxima-te do leito e verás, então, que monstro está perto de ti. Interdita, ansiosa e atormentada, Psiquê ocultou àquela mesma noite o candeeiro aceso sob um vaso, deitou-se e esperou, acordada, que seu esposo estivesse mergulhado no sono. Sem fazer ruído, levantou-se então, tomou da luz e aproximou-se do leito. Mas, ó surpresa! em lugar de um monstro temido, vislumbrou uma cabeça loira de cabelo perfumados, uma boca exalando o perfume da ambrosia, ombros de marfim onde se ligavam braços redondos e flexíveis, um dos quais segurava o arco, enquanto o outro, recurvado sobre a cabeça, enquadrava com graça o oval perfeito dum rosto de lírio. Cada vez mais inflamada de amor, Psiquê desejou, então, beijar a fronte de seu maravilhoso esposo. Mas, ao debruçar-se, inclinou o candeeiro e uma gota de azeite fervendo pingou sobre a espádua nua de Eros. Acordado pela dor, Eros percebeu logo que a amante havia falhado. Voou imediatamente, desencantou Psiquê, deixando-a inteiramente em lágrimas. Na sua dor, a jovem imprudente quis, então, atirar-se a um rio, mas a água indócil devolveu-a para a margem. Desvairada e ardendo ainda do desejo de reencontrar o que perdera, Psiquê pôs-se, desde então, a percorrer o mundo. Vagando por cem lugares diferentes, visitava os templos, suplicando aos Deuses que lhe devolvessem o esposo. Nenhum deles, porém, quis consentir em indicar-lhe o local de seu retiro. Finalmente, exausta de vagar, resolveu apresentar-se às portas do palácio de Afrodite. Assim agindo, esperava que a visão da sua dor aplacasse a bela Deusa e que a mãe de Eros, mitigando a cólera do filho, lhe facilitasse o encontro desejado. Mas Afrodite de tranças loiras, assim que percebeu a infeliz Psiquê, abanou a cabeça com um riso escarninho, atirou-se sobre ela, rasgou-lhe os trajes, arrancou-lhe os cabelos e magoou, golpeando-o, seu rosto banhado em pranto. Depois, dando-lhe por companheiras a Inquietude e a Tristeza, tornou-a sua escrava, impondo-lhe os mais rudes e humilhantes serviços. Psiquê, sem nada dizer, e continuando fiel ao seu amor, obedecia. Eros, curada a ferida, desejou enfim recompensar a constância de tão vivo amor. Dirigiu-se ao Olimpo, foi lançar-se aos próprios pés de Zeus, implorando-lhe libertasse Psiquê, dando-lha por esposa. Zeus consentiu a tudo. Encarregou Hermes de introduzir Psiquê na casa dos Deuses e de oferecer-lhe, para torná-la imortal, a agradável ambrosia. Depois, enquanto os Deuses saciavam-se do néctar, as Musas cantavam, dirigidas por Apolo, as Cárites espalhavam perfumes e a própria Afrodite dançava com seus coros, Eros ficou para sempre, pelos laços do matrimônio, unido a Psiquê. |
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